5/10/26

2 — Escolhas Estéticas Sobre Figurino e Cenário

 Escolhas Estéticas

As escolhas estéticas de figurino e cenário em Peso Bruto foram construídas a partir de referências autobiográficas e elementos visuais diretamente ligados à minha trajetória pessoal. O figurino inicial da personagem drag Margarida Pipper dialoga com referências de drag caricata, humor popular e exagero visual, funcionando como uma espécie de máscara social que abre o espetáculo e conduz o público para um primeiro estado de memória e fabulação.

Outras escolhas de figurino foram desenvolvidas a partir de fotografias do meu acervo pessoal, especialmente imagens da infância. Algumas peças reproduzem roupas semelhantes às utilizadas por mim em diferentes momentos da vida, buscando aproximar visualmente as cenas da ideia de arquivo autobiográfico. Essas trocas de roupa acontecem em cena e fazem parte da própria dramaturgia, funcionando como passagem temporal entre fases da vida e estados emocionais distintos.

A presença da Umbanda também influencia diretamente as escolhas visuais do espetáculo. Em determinadas cenas utilizo camisa branca, calça clara e o eketé (também chamado filá), elementos associados às vestimentas tradicionais de terreiro. Essas escolhas não surgem como representação religiosa ilustrativa, mas como parte da minha própria experiência de pertencimento espiritual e afetivo dentro da religião.

O cenário foi pensado de maneira simples e móvel, permitindo adaptação para diferentes espaços de apresentação. Os objetos de cena possuem caráter simbólico e autobiográfico, funcionando mais como acionadores de memória do que como elementos decorativos. Fotografias, tecidos, balança e projeções visuais ajudam a construir um ambiente entre lembrança, ritual e exposição do corpo.

As escolhas de luz e sonoridade também passaram a considerar questões sensoriais relacionadas ao autismo. Foram evitadas luzes estroboscópicas, estímulos abruptos e volumes excessivamente intensos, buscando uma experiência mais acessível e confortável para pessoas com sensibilidades sensoriais.

1 — Processo de Criação da Dramaturgia

Processo de Criação 

O processo de criação dramatúrgica de Peso Bruto: Autoetnografia de um homem gordo, gay e autista surgiu inicialmente a partir de relatos autobiográficos, memórias corporais e experiências pessoais relacionadas à infância, ao corpo gordo, à homossexualidade e ao diagnóstico tardio de autismo. Durante os ensaios, fui organizando as cenas como fragmentos de memória, sem seguir inicialmente uma ordem linear, permitindo que o próprio corpo conduzisse as escolhas de movimento, pausa, repetição e permanência em cena.

A construção das cenas partiu de exercícios de improvisação corporal, escuta sensorial e recordações específicas da minha trajetória. Algumas imagens recorrentes começaram a aparecer com frequência durante os ensaios: festas familiares, comidas afetivas, experiências religiosas, situações de bullying, a tentativa constante de adequação social e a presença da personagem drag Margarida Pipper como símbolo de sobrevivência, humor e mascaramento social.

Ao longo da criação, compreendi que a obra não tratava apenas de narrar experiências pessoais, mas de investigar como essas experiências permaneceram inscritas no corpo. As cenas passaram então a ser construídas menos pela lógica do texto falado e mais pela permanência física, pela respiração, pela exaustão e pela relação entre corpo e memória.

Outro aspecto importante do processo dramatúrgico foi perceber como o diagnóstico de autismo reorganizou minha leitura sobre acontecimentos passados. Muitas lembranças da infância e adolescência passaram a ganhar novos sentidos durante os ensaios, principalmente situações de inadequação social, hipersensibilidade e isolamento, que anteriormente eram interpretadas apenas como “estranheza” ou “timidez”.

A dramaturgia continua em processo de transformação. A cada ensaio, novas relações surgem entre movimento, silêncio, imagem e memória. O espetáculo permanece aberto a reorganizações, principalmente na tentativa de construir uma linha temporal mais clara entre infância, juventude e vida adulta.