Trilha Sonora e Vídeo
A trilha sonora de Peso Bruto foi construída a partir de diferentes camadas sonoras relacionadas à memória, improvisação e autobiografia. Parte do material surgiu de improvisos realizados por mim na flauta transversal, instrumento que possui forte relação com minha trajetória pessoal e artística. Esses improvisos passaram posteriormente por processos de edição, sobreposição e mixagem utilizando programas específicos de composição e manipulação sonora.
Na cena da personagem drag Margarida Pipper, foram escolhidas duas músicas dubladas que dialogam diretamente com referências afetivas e culturais do passado. A utilização dessas músicas busca criar aproximação imediata com o universo da memória, do humor e da teatralidade exagerada presente na abertura do espetáculo.
As composições utilizadas nas partes coreográficas foram desenvolvidas especificamente para a obra. A criação sonora partiu de gravações experimentais, ruídos, respiração, fragmentos instrumentais e estruturas improvisadas que depois foram reorganizadas digitalmente. O objetivo foi construir trilhas que acompanhassem os estados físicos do corpo em cena, respeitando também limites sensoriais relacionados ao excesso de estímulo sonoro.
O espetáculo conta ainda com dois trabalhos em vídeo. O primeiro, intitulado Criança Viada, reúne imagens da minha infância e adolescência, organizadas como espécie de arquivo afetivo. O vídeo funciona como reflexão sobre experiências de inadequação, bullying e neurodivergência durante a infância nos anos 1980, período em que o diagnóstico de autismo ainda era distante da realidade de muitas famílias e escolas.
O segundo vídeo é resultado de uma pesquisa iniciada durante o mestrado, relacionada à tradicionalidade, decolonialidade e religiosidade afro-brasileira. Originalmente pensado como exercício cênico durante o período da pandemia, o material foi posteriormente reeditado para integrar o espetáculo. Foram acrescentadas legendas e reorganizadas as imagens para fortalecer a discussão sobre fé e minha relação com a Umbanda. Durante a apresentação também realizo descrições do cenário, dos objetos e das ações em tempo real, aproximando a cena de uma prática de audiodescrição como ação inclusiva. Embora a estreia não tenha contado com intérprete de Libras, esse recurso já está previsto para as próximas apresentações.
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