5/10/26

4 — Relato da Primeira Apresentação / Estreia

 Primeira Apresentação

A primeira apresentação de Peso Bruto: Autoetnografia de um homem gordo, gay e autista aconteceu no dia 08 de maio, no Espaço Cultural Miraira, localizado na Casa de Artes do curso de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal do Ceará. A atividade foi acolhida pelo PPGArtes, Programa de Pós-Graduação em Artes do IFCE, instituição da qual sou egresso. Além da estreia do espetáculo, também realizei a apresentação dos meus livros, incluindo a publicação resultante da dissertação de mestrado desenvolvida no programa.

A apresentação teve duração aproximada de uma hora e quinze minutos, tempo superior ao previsto durante os ensaios. Parte dessa duração ampliada ocorreu pela utilização dos recursos de projeção e pela escolha de eu mesmo operar algumas ações técnicas em cena, manipulando vídeos e descrevendo essas ações como parte da dramaturgia. Embora essa escolha tenha criado momentos importantes de interação entre corpo, imagem e narrativa, também gerou pausas longas e lacunas silenciosas que impactaram o ritmo geral da encenação.

Os recursos tecnológicos utilizados contribuíram significativamente para a experiência da obra, especialmente os vídeos autobiográficos e as projeções ligadas à infância e à religiosidade. Entretanto, após a estreia, compreendi a necessidade de dividir algumas funções técnicas nas próximas apresentações, principalmente operação de projeção e áudio, permitindo maior fluidez cênica e continuidade dramatúrgica.

As trocas de figurino realizadas em cena funcionaram de maneira satisfatória e fortaleceram a ideia de passagem temporal entre diferentes momentos da vida. A escolha de iniciar o espetáculo com a personagem drag Margarida Pipper também foi bem recebida pelo público, funcionando como um primeiro acesso às memórias e aos deslocamentos presentes na obra.

Após a estreia, algumas reorganizações dramatúrgicas começaram a ser planejadas para as próximas apresentações. Entre elas, a construção de uma linha temporal mais clara entre infância, juventude e vida adulta, a redução do tempo de determinadas trilhas sonoras e o fortalecimento das escolhas coreográficas como eixo central da narrativa cênica.

3 — Processo de Criação da Trilha Sonora e Vídeo

 Trilha Sonora e Vídeo

A trilha sonora de Peso Bruto foi construída a partir de diferentes camadas sonoras relacionadas à memória, improvisação e autobiografia. Parte do material surgiu de improvisos realizados por mim na flauta transversal, instrumento que possui forte relação com minha trajetória pessoal e artística. Esses improvisos passaram posteriormente por processos de edição, sobreposição e mixagem utilizando programas específicos de composição e manipulação sonora.

Na cena da personagem drag Margarida Pipper, foram escolhidas duas músicas dubladas que dialogam diretamente com referências afetivas e culturais do passado. A utilização dessas músicas busca criar aproximação imediata com o universo da memória, do humor e da teatralidade exagerada presente na abertura do espetáculo.

As composições utilizadas nas partes coreográficas foram desenvolvidas especificamente para a obra. A criação sonora partiu de gravações experimentais, ruídos, respiração, fragmentos instrumentais e estruturas improvisadas que depois foram reorganizadas digitalmente. O objetivo foi construir trilhas que acompanhassem os estados físicos do corpo em cena, respeitando também limites sensoriais relacionados ao excesso de estímulo sonoro.

O espetáculo conta ainda com dois trabalhos em vídeo. O primeiro, intitulado Criança Viada, reúne imagens da minha infância e adolescência, organizadas como espécie de arquivo afetivo. O vídeo funciona como reflexão sobre experiências de inadequação, bullying e neurodivergência durante a infância nos anos 1980, período em que o diagnóstico de autismo ainda era distante da realidade de muitas famílias e escolas.

O segundo vídeo é resultado de uma pesquisa iniciada durante o mestrado, relacionada à tradicionalidade, decolonialidade e religiosidade afro-brasileira. Originalmente pensado como exercício cênico durante o período da pandemia, o material foi posteriormente reeditado para integrar o espetáculo. Foram acrescentadas legendas e reorganizadas as imagens para fortalecer a discussão sobre fé e minha relação com a Umbanda. Durante a apresentação também realizo descrições do cenário, dos objetos e das ações em tempo real, aproximando a cena de uma prática de audiodescrição como ação inclusiva. Embora a estreia não tenha contado com intérprete de Libras, esse recurso já está previsto para as próximas apresentações.

2 — Escolhas Estéticas Sobre Figurino e Cenário

 Escolhas Estéticas

As escolhas estéticas de figurino e cenário em Peso Bruto foram construídas a partir de referências autobiográficas e elementos visuais diretamente ligados à minha trajetória pessoal. O figurino inicial da personagem drag Margarida Pipper dialoga com referências de drag caricata, humor popular e exagero visual, funcionando como uma espécie de máscara social que abre o espetáculo e conduz o público para um primeiro estado de memória e fabulação.

Outras escolhas de figurino foram desenvolvidas a partir de fotografias do meu acervo pessoal, especialmente imagens da infância. Algumas peças reproduzem roupas semelhantes às utilizadas por mim em diferentes momentos da vida, buscando aproximar visualmente as cenas da ideia de arquivo autobiográfico. Essas trocas de roupa acontecem em cena e fazem parte da própria dramaturgia, funcionando como passagem temporal entre fases da vida e estados emocionais distintos.

A presença da Umbanda também influencia diretamente as escolhas visuais do espetáculo. Em determinadas cenas utilizo camisa branca, calça clara e o eketé (também chamado filá), elementos associados às vestimentas tradicionais de terreiro. Essas escolhas não surgem como representação religiosa ilustrativa, mas como parte da minha própria experiência de pertencimento espiritual e afetivo dentro da religião.

O cenário foi pensado de maneira simples e móvel, permitindo adaptação para diferentes espaços de apresentação. Os objetos de cena possuem caráter simbólico e autobiográfico, funcionando mais como acionadores de memória do que como elementos decorativos. Fotografias, tecidos, balança e projeções visuais ajudam a construir um ambiente entre lembrança, ritual e exposição do corpo.

As escolhas de luz e sonoridade também passaram a considerar questões sensoriais relacionadas ao autismo. Foram evitadas luzes estroboscópicas, estímulos abruptos e volumes excessivamente intensos, buscando uma experiência mais acessível e confortável para pessoas com sensibilidades sensoriais.

1 — Processo de Criação da Dramaturgia

Processo de Criação 

O processo de criação dramatúrgica de Peso Bruto: Autoetnografia de um homem gordo, gay e autista surgiu inicialmente a partir de relatos autobiográficos, memórias corporais e experiências pessoais relacionadas à infância, ao corpo gordo, à homossexualidade e ao diagnóstico tardio de autismo. Durante os ensaios, fui organizando as cenas como fragmentos de memória, sem seguir inicialmente uma ordem linear, permitindo que o próprio corpo conduzisse as escolhas de movimento, pausa, repetição e permanência em cena.

A construção das cenas partiu de exercícios de improvisação corporal, escuta sensorial e recordações específicas da minha trajetória. Algumas imagens recorrentes começaram a aparecer com frequência durante os ensaios: festas familiares, comidas afetivas, experiências religiosas, situações de bullying, a tentativa constante de adequação social e a presença da personagem drag Margarida Pipper como símbolo de sobrevivência, humor e mascaramento social.

Ao longo da criação, compreendi que a obra não tratava apenas de narrar experiências pessoais, mas de investigar como essas experiências permaneceram inscritas no corpo. As cenas passaram então a ser construídas menos pela lógica do texto falado e mais pela permanência física, pela respiração, pela exaustão e pela relação entre corpo e memória.

Outro aspecto importante do processo dramatúrgico foi perceber como o diagnóstico de autismo reorganizou minha leitura sobre acontecimentos passados. Muitas lembranças da infância e adolescência passaram a ganhar novos sentidos durante os ensaios, principalmente situações de inadequação social, hipersensibilidade e isolamento, que anteriormente eram interpretadas apenas como “estranheza” ou “timidez”.

A dramaturgia continua em processo de transformação. A cada ensaio, novas relações surgem entre movimento, silêncio, imagem e memória. O espetáculo permanece aberto a reorganizações, principalmente na tentativa de construir uma linha temporal mais clara entre infância, juventude e vida adulta.

Peso Bruto

 Peso Bruto: autoetnografia de um homem gordo, gay e autista.


É um ato cênico que transforma vivência em movimento. Em cena, o corpo fala, tensiona padrões e expõe camadas de memória, identidade e resistência. Entre dança e presença performativa, a obra convida o público a atravessar sensações, repensar normas e olhar para a diferença não como limite, mas como potência.


Projeto contemplado no 14° Edital Ceará das Artes – Teatro, na categoria Projetos Diversos.
“Este projeto é apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos provenientes da Lei Federal nº 14.399, de julho de 2022.”

Ficha Técnica
Graco Alves (interprete) 
Michelle Gomes (maquiagem e figurino)
Gilberlan Meneses (produção)
Graco Alves e Samuel Pereira (trilha sonora)
Wiliana Almeida (LIBRAS)